Ebitda com poesia

Hoje faço 49 anos.

De tempos em tempos, faço alguns balanços. Em aniversários, acaba sendo um ritual automático.

Chego aos 49 às vésperas do nascimento da minha terceira filha, a Luísa, e depois de muitos anos trabalhando, empreendendo e convivendo com empresários e famílias que construíram patrimônios extraordinários. E percebo que uma pergunta que me acompanhou durante boa parte da vida começa a dividir espaço com outra.

Durante muito tempo eu quis entender como prosperar. Hoje me interessa cada vez mais entender para quê.

Venho de uma família de classe média e prosperidade, para mim, sempre esteve muito associada à liberdade e ​à autonomia.

Continuo valorizando tudo isso. Tenho enorme admiração por quem empreende, assume riscos, gera empregos, enfrenta crises e transforma uma ideia em uma organização que funciona. Construir alguma coisa relevante é muito difícil e há uma beleza enorme na realização.

O que mudou não foi minha admiração pela prosperidade. Mudou minha curiosidade sobre o que fazemos depois dela.

Quando passamos décadas treinados para medir, otimizar, crescer e conquistar, corremos o risco de aplicar os mesmos critérios a coisas que talvez não devam ser medidas dessa maneira. 

Foi quando comecei a entender melhor uma distinção que hoje me parece importante: ter acesso ao belo não significa necessariamente desenvolver sensibilidade para percebê-lo.

Dinheiro compra um grande vinho, mas não compra paladar. Compra uma obra importante, mas o olhar não vem junto. Pode construir uma casa extraordinária, mas a arquitetura fica muito mais interessante quando deixamos de enxergar apenas metragem e acabamento e começamos a perceber proporção, luz, matéria, silêncio e paisagem.

Você pode comprar o melhor sistema de som do mundo. O repertório musical continua não vindo na caixa.

Talvez isso ajude a explicar por que às vezes encontramos tanta ostentação justamente onde esperávamos encontrar sofisticação. Quando ainda não sabemos reconhecer valor, o preço é um atalho muito conveniente.

Conheci gente com relativamente pouco patrimônio e uma enorme capacidade de se interessar pelo mundo, cultivar amizades, contar histórias, rir, aprender e se encantar. E conheci também pessoas cercadas de abundância que pareciam ter perdido justamente isso.

Não porque o dinheiro necessariamente empobreça alguém. Seria uma conclusão fácil e, na minha opinião, errada. Mas porque podemos passar tanto tempo desenvolvendo uma dimensão da existência que simplesmente deixamos as outras atrofiarem.

Continuo acreditando que empresa precisa gerar caixa, projeto precisa ser executado e organização precisa ser produtiva. Boas intenções não substituem competência e propósito não paga sozinho a folha de pagamento. Também não vejo grande virtude em ter ideias maravilhosas que nunca encontram o mundo real.

O que tenho questionado é por que precisamos escolher um lado.

Não vejo por que prosperidade precisa excluir profundidade, ou por que execução e contemplação não podem conviver. EBITDA e poesia podem ocupar a mesma vida. Tecnologia e filosofia também. Ambição e sensibilidade não precisam ser adversárias.

Essa reflexão também começou a mudar a maneira como enxergo sucessão.

Durante muitos anos, nós nos preocupamos em preparar herdeiros e sucessores para administrar empresas e patrimônio. Ensinamos finanças, estratégia, governança e gestão. Fazemos assessments, desenhamos estruturas, discutimos conselhos, acordos societários e preparação de sucessores. Tudo isso é necessário.

Mas comecei a achar que existe uma pergunta anterior: estamos preparando alguém apenas para administrar aquilo que recebeu ou também para construir uma vida que seja realmente sua?

Gostaria que meus filhos entendessem dinheiro, soubessem trabalhar e fossem capazes de tomar boas decisões. Mas gostaria igualmente que tivessem curiosidade, amigos, interesses, autonomia, repertório e vocação própria. Que fossem capazes de amar alguma coisa que não tenha CNPJ.

Porque talvez exista um risco mais triste do que formar um herdeiro incapaz de administrar o patrimônio da família: formar alguém perfeitamente preparado para administrá-lo e completamente despreparado para descobrir o que fazer com a própria existência.

Aos 49 anos, minha ideia de sucesso não ficou menor. Acho que ficou mais exigente.

Continuo querendo prosperidade, realização, bons projetos e empresas excelentes. Mas quero outras coisas junto disso. Quero conviver com pessoas interessantes. Quero repertório, presença e curiosidade. Quero que tecnologia amplie nossa humanidade, não que ocupe todo o espaço dela. Quero que patrimônio produza liberdade, e não apenas a necessidade de produzir ainda mais patrimônio.

Mas, aos 49, surge uma autoprovocação: como construir uma vida à altura da prosperidade que conseguimos criar?

Era mais isso.

Por Fabio Guarnieri
CEO da Lumit

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